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Os homens: as vítimas esquecidas da Interrupção Voluntária da Gravidez

por cavalheirosdoapocalipse, em 09.02.07

Em todo este debate nacional sobre o aborto, um facto salta à vista: mais de 90% dos argumentos apresentados de um lado e do outro eu já havia exposto e debatido há mais de quatro anos um pouco por todo o Norte do país. Aliás, eu gostaria que o Sr. Primeiro ministro comentasse as minhas afirmações no restaurante "O Serrano", em Março de 2003, quando afirmei para dois amigos meus e uma mesa ao lado com cerca de quatro pessoas, que nunca mais voltei a ver, que nenhum governo teria coragem de chamar à atenção para o drama social que está a ser vivido por milhares de homens vítimas da interrupção voluntária da gravidez. A verdade é que a história veio sublinhar e colocar a itálico as minhas palavras. Exponho aqui quatro pontos e uma nota que gostaria de ver comentados por alguém do governo português (se possível pelo sr. Primeiro-ministro):

1º Até ao momento não vi ninguém abordar o sofrimento de tantos e tanto homens que no pós-aborto têm tanta dificuldade em retomar a sua vida normal. Vejamos: li na página dos «Somos médicos por isso não» que muitas das mulheres podem ficar depressivas no pós aborto. Todos nós já aturamos o mau humor e a instabilidade emocional feminina. Provavelmente se eu tivesse que acompanhar uma interrupção voluntária de gravidez de uma mulher ficaria sempre com a ideia: “queres-me ver que quem se vai lixar com tudo isto sou eu”. Não é difícil imaginar o inferno que muitos homens (cerca de 10 mil por ano) vivem na sua intimidade: ou é porque não fazemos nada, ou é porque somos uns preguiçosos, não baixas a tampa da sanita, não respeitas nada, etc. São aos milhares, os homens vítimas da interrupção voluntária da gravidez, homens que só lhes resta pensar: ”OK, mantém-te calmo Zé, ela fez uma IVG, mas isto há-de passar”.
Os últimos estudos que fiz, numas contas por alto, cerca de 5000 homens (valor estimado de homens envolvidos – 50%) apresentam problemas de insónia, insegurança e perda de atenção.
Sem fazermos julgamentos de valor, que não o devemos fazer, vou contar a história de um amigo, podemos chamar-lhe de R. (inicial fictícia) que era casado e depois de dois anos de convívio iniciou-se nas aventuras dos chats. Agora não interessa os pormenores, o certo é que veio a conhecer Joana Sousa (nome próprio verdadeiro mas nome de família fictício) e começaram a encontrar-se discretamente no Tropicália, um motel da região do Porto. Algum descuido e Joana Sousa engravidou. O meu amigo ficou desesperado. Prontamente convenceu-a com assertividade de que deveria fazer um aborto e ela fez. Esse meu amigo nunca mais voltou a ser o mesmo. Jurou-me que nunca mais voltou a um chat e disse-me que ainda hoje tem pesadelos e está sempre com medo de ver Joana sempre que vai com a mulher ao centro comercial. Ou seja, o meu amigo R. foi apenas mais uma das vítimas anónimas, e nunca faladas neste debate, do aborto.

2º Mas o sofrimento dos homens não se resume as estes dez mil e gostaria que o sr. Primeiro-ministro reflectisse e tivesse pelo menos uma palavra para tantos milhares de homens anónimos que vivem o aborto no papel de vizinhos, colegas de trabalho e conhecidos e vêem as coisas alterarem-se sem perceberem muito bem o que se passa. É a vizinha que deixou de se arranjar; é a colega de trabalho sempre antipática que desata a chorar quando mandamos uma boca.

3º Sr. primeiro-ministro há milhares de homens neste momento a sofrer com a imagem vil que a comunicação social tem vindo a transmitir do papel masculino na família contemporânea. Recordo as palavras de um amigo meu que chorava e dizia-me: “eu já não aguento mais, todos os dias dão uma imagem negativa nossa e eu só quero que todos se entendam e haja amor”. A única coisa que posso dizer é que esse meu amigo já não se encontra entre nós. Não aguentou a pressão e foi viver para o Brasil.

4º Um argumento que julgo válido para decidirmos pelo “Não” foi-me colocado por outro amigo. Recentemente num caso extra-conjugal que manteve viu-se obrigado a convencer a companheira a interromper a gravidez. Não foi fácil porque ela era uma mulher “manipuladora e sem escrúpulos, mas boa como o caraças”, segundo as palavras do meu amigo.
Ele justificou-me porque ia votar Não: “se ela fosse abortar a um estabelecimento devidamente legalizado, imagina que me aparece lá um psicólogo irresponsável ou um badamerdas de bata branca qualquer e a convence a desistir, já viste a minha vida?”. A verdade é que o governo português, face a esta realidade, não pensa nas consequências que uma mudança de lei poderá provocar na vida de muitos homens.

Nota: Gostaria que o sr. primeiro ministro me dissesse ou alguém do seu executivo se caso a lei for alterada se eu poderei deduzir no IRS os custos com um aborto, e qual o valor máximo a deduzir?

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